sábado, 23 de outubro de 2010

Tantas

Toda vez que me procurar
serei outra
quem sabe em uma das tentativas
encontre a que procura
mas boa sorte
não tenho controle sobre isso
nem vou facilitar a sua vida
toda vez que me olhar
encontrará outra
caso nenhuma lhe agradar
espera o surgimento da próxima
mas boa sorte
não tenho controle sobre você
nem sou obrigada a saber o que quer
toda vez que me aceitar
eu serei eu
e sobre isso eu tenho total controle.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Cortinas

Descortinei meu ser como quem decora poemas
Olhando cada verso e estrofe com uma paz deliberada
As cortinas rasgadas
As de seda
As novas
E as empoeiradas
Descortinei minhas verdades como quem decora canções
Escutando a melodia casada na letra numa fome inalterada
As cortinas costuradas
As de linho
As primeiras
E as encostadas
Descortinei a mulher que sou como quem cria histórias infantis
Namorando partes e personagens com uma alegria descontrolada
As cortinas arrumadas
As de chitão
As sinceras
E as que restaram
Descortinei meu eu dentro das janelas da minha vida
Como quem pela primeira vez se apaixona
Pela vista lá fora

Descortinei...

Agradecimento

Recordo o dia que cresci
Um pouco mais
Além do comum crescimento humano
E suas conhecidas implicações
Lembro o dia que cresci
Um crescimento de lágrima
Caída nas palavras
As palavras tuas, tão duras
Tão sinceras, tão eu
Por um momento parei ali
Calada, embasbacada, olhando a soma
A mistura de adjetivos e dizeres
Mentirosos? Não
Exagerados? Não
Cruéis? Não
Era eu em cada sinonímia
E parei ali, inerte a me olhar na tua escrita
E fui crescendo, num banho morno de lágrimas necessárias
E fui me aglutinando, num despertar de animal em casca de ovo
Completamente despida tal qual um feto
Que mirando as primeiras horas do mundo lá fora:
Chora...
Obrigada!
Obrigada!

Dias

Olho meus dias com paciência adolescente
Minhas idéias envelheceram mas os sonhos não
Teimam em não crescer, com uma fome exagerada
Sou apenas eu agora e estes sonhos moleques
Mais nada

Já tive medo de mim, não, medo não, pavor
Pavor da falta de amor com que me atirava
Rumo às paixoes travestidas de ilusão
Pavor da mulher olhando a estrada
A vida, a luta, a alvorada
Hoje o pavor virou uma saudade, uma piedade
Da menina presa no corpo da fêmea rainha
O pavor é vapor de um trem que sumiu na aurora
O pavor é amor agora

Destarte
Chega de poemas, por hora,
Que os poemas nos mostram demais
A alma despida das vestes casuais
Que a vida, esta cigana, nos obrigou usar
Chega de poemas e apontamentos
A vida é mais que isso, coração
A vida é evolução.

domingo, 17 de outubro de 2010

Efeito

A moda das máscaras notadamente passou
A temporada dos efeitos chegou com tudo
As tendências
Os estilos
Agora o fashion das vidas é o efeito
As máscaras ficaram vintage
As máscaras guardadas no armário
No fim da estação
Reino dos efeitos
Os efeitos sonoros
Os efeitos poéticos
Os efeitos dos contrastes
Os efeitos visuais
Os efeitos de causar impacto
Tudo é efeito
Costurado em linha frágil e brilhante
Mas efeito
Todos querem causar efeito
Abandonados que estão de suas máscaras
Desfilam na passarela da vida, os efeitos
Efeitos para impressionar ou não
Efeitos
Efeitos sem márcaras
Efeitos com ou sem mostrar defeitos
Temporada de efeitos
Muito brilho
E bem maior sagacidade para enxergar o conteúdo
Tempora de efeito
Vistam-se!

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Ampulheta

Areia e vidro
Nada mais
Tempo coalhando tempo
E por que?
Porque a vida é tão curta
Ampulheta
A areia cai lentamente
O vidro observa, impassível
E por que?
Porque a vida é muito curta
Então viva!
Deixe a mera existência e viva
A sua vida, a sua escolha
De como será ou não
O percurso ou o fim
Ampulheta
Com esta ou aquela areia
Porque a vida é tão curta
Não importa como acaba
Não importa o quanto dura
Ela é mesmo tão curta
Ninguém vai vivê-la pra você
Vão opinar
babar, criticar, tentar decifrar
Ampulheta
Mas ela, a vida, será sempre só sua
Então escolha o que fará com ela
Porque afinal de contas
Ela é mesmo muito curta
Instantânea o suficiente para ser linda
Breve o suficiente para ser justa
Rápida o suficiente para ser inesquecível
Curta o suficiente para se fazer
tudo pelo que é imenso: AMOR.

sábado, 9 de outubro de 2010

Abajur

Sonhei com meu antigo abajur de ouro
Presente, lindo presente
e acordei recordando
O dia exato que perdi tudo
Olhei meu mundo de agora
E me lembrei do exato instante
Em que eu perdi tudo
Tudo que o ser humano dá valor
Tudo que o ser humano presa
Hoje eu me lembrei
Da data
Da hora
Minutos e segundos
Em que eu perdi tudo
e lá se vão quase três anos
Em que me vi completamente

Na imensidão da casa vazia
Destruída
Semi quebrado por mim
O pouco que restou
Hoje eu lembrei do exato momento
Em que eu perdi tudo
Inclusive o lindo abajur
E sorri
Lembrei que
Eu perdi tudo
E ganhei a mim!

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Carona

Nas curvas da vida
eu vejo ELE
lá sentado na estrada
Eu sempre páro e pergunto
Quer carona?
E ELE sorri e diz
Não! Não estou pedindo carona moça!
Fico curiosa
Quero saber porque ELE está sempre ali
Na minha estrada
Volto o carro da vida várias vezes e repito
Quer carona?
ELE repete sem cansar
Não! Não estou pedindo carona moça!
Acabo por desistir de lhe oferecer carona
Volto, desço, me sento ao lado dele na estrada
e falo sorrindo
Me dá um cigarro?
E ELE ri...

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Cacos

Hoje o inteiro é sem valor
Tem importância os cacos
Cacos de idéias
Cacos de sentimento
Cacos de coragem
Cacos de sinceridade
Caso demonstres algo
Na forma passional
Irracional
Exagerada reação
Ou chore [este então é o pior dos crimes atuais]
Serás visto como inteiro
Não serve!
Mas experimentes ser frio
Muito frio, iceberguicamente frio
Não somente racional ou prático
Mas gélido
Não te importes em estar só
Em ficar só
Digas um adeus com facilidade
E sim! Servirás!
Não serás inteiro, serás caco
E cacos estão em alta
É o advento dos cacos
O milênio dos cacos
Inteiros estão ultrapassados
Saída?
Despedaça-te!

Pois é

Vida matreira
Pois é
Põe você na minha mente
Com uma pasmaceira cinica
Inconsequente
Pois é
E se não é?
Ah deixa ser!
Lá vem de novo
Você!
Cair nas graças
Da minha sinapse neural
Incômodo
Repetitivo
Feito velho topico frasal
Pois é!
O que é?
Deixa quieto
Pois é
E se der?
Há de ser de novo
Tomara!

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Bicho

Cascudinho
Doentio
Insistente
Garras afiadas
Sanguessugnadamente enlouquecedor
Inexplicável
Cauterizante
Despedaçador
Bicho de mão
Alma
Coração
Bicho Saudade
que devora
suga
enruga
enferruja
e renasce toda temporada
Bicho Saudade
e a eterna estrada
...

sábado, 2 de outubro de 2010

Imperfeita

Não se engane
Não queira se enganar
Nada mudará
Eu sou este avesso
Este traçado de linha recortada
Amontoado de ilógica
Imperfeita
Total e cabalmente imperfeita
Guardando com esmero
Todos os defeitos possíveis
E os ainda não catalogados
Não queira se iludir
Nada que fizer mudará este fato
Sou imperfeita
Não seria o contrário
Nem que ousasse
Nem que quisesse
A verdade é que não ouso
A verdade é que não quero
Não ser imperfeita
Vem para o meu mundo
de imperfeição
Ciente dele
e assim
Somente assim
Já ciente, poderá me conhecer inteira
Inteiramente
IMPERFEITA