quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Tranquilidade Seletiva

Ontem, em conversa com amigas
na sala de casa
um assunto muito atual veio à tona
Mundo Real x Mundo Virtual
Ouvi todas as conversas
as confissões
as histórias picantes
as histórias divertidas
e claro, as catástrofes
que, por sinal, eram o pilar da conversa
Ouvi tudo com uma pachorra imensa
de quem não vê novidade alguma em nada daquilo
e sorri, aquele velho esgar de "lá vem bomba",
conforme as próprias amigas gostam de nomear
Sorri e afirmei
Ontem fiz uma limpeza no Meu País das Maravilhas
Hoje terminarei de deletar o restante
tal qual a Rainha de Copas
deceparei mais uma série de existências
Todas em uníssono indaragam:
Ué... Mas qual critério usa para deletar pessoas?
Excluí-las assim da sua vida não é cruel?
Uso a Tranquilidade Seletiva - afirmei,
Interrogações pularam dos rostos de todas
Adoro este momento de "oh, que troço será este?"
e pacientemente expliquei
Tranquilidade Seletiva
é o processo que inventei
dentro do País das Maravilhas
após descobrir
que alguns coelhos tentam ser lebres
e algumas lebres são na verdade cogumelos
No processo de Tranquilidade Seletiva
quem é de verdade sabe quem é de mentira
e simplesmente passa uma borracha em quem
insiste em ser de mentira dentro do próprio mundo de Ilusão
O cúmulo da Ilusão precisa ser deletado, mas a arte da Ilusão não
Assim, tranquilamente manda-se embora o que
sabemos que não nos fará nenhum bem ou mal
porque para produzir efeitos reais é preciso fazer alguma coisa
quer seja ela boa ou ruim, mas alguma coisa
Ficam então aqueles que farão algo em prol do mundo real
Riram muito das minhas metáforas e disseram
que continuavam sem entender "nadica de nada"
Foi então que usei uma frase clássica do meio virtual:
"Não deixe sua vida virtual destruir ou empobrecer sua vida real,
pois aquela foi feita para dar mais cor a esta, enriquecê-la
e não eliminá-la, como se competissem por sua atenção."
Notei que algumas entenderam e se calaram
pelo menos aquelas que tinham alguma realidade a preservar
Quanto às demais
mais cedo ou mais tarde entenderão...

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

As lutas

Elas nunca cessam
sempre que saímos bem
ou mal,que seja,
de alguma luta
Outra se apresenta
novo estilo
nova forma
novas necessidades de defesa
As lutas existem com este fim
o de não estagnar o Guerreiro
A luta seguinte nunca será igual a anterior
As lutas testam o seu eu interior
O eu em que cada um se tornou
Aquele eu que você é
No dado momento que a luta se apresenta
As lutas nunca cessam
As lutas jamais cessarão
Esta é a maior magia de estar vivo...

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Escrever

As pessoas pensam que escrevo
somente porque gosto
Tá bem, é meia verdade
Adoro escrever
Mas não é bem só por gostar
É pra desaguar
Esvaziar
Tanta coisa maior que eu
que enche periodicamente
feito aqueduto romano
aquele troço tamanho
Que se não escoar
Explode
Escrever é pra quem pode
Diz o amigo poeta baiano
Não posso escrever
Mas posso ser
E por ser demais
eu escrevo
por necessidade
de escrever
A escrita é furo no meu balde cheio
de mim
Necessário...

Taurina

Ontem mano me mandou um recado
de email engraçado
Indagando se eu já fui domada
se acaso continuo só na minha jornada
Mensagem bonita de parafrasear
quem nos conhece até sobrar
Ontem mano escreveu pra mim
"Taurina, por que foges assim?"
E pensei no meu signo
No que eu sou
Este povo estranho
que afugenta sem querer e por querer
O maninho mais velho só me chama assim
O outro nem chama
tem medo de mim
Pensei pra responder o email
Acabei por não responder nada
Raramente eu apareço pela estrada
E ele deve rir e pensar de mim
a bichinho do mato na cidade grande
que aparece as vezes em casa,
mochila semi vazia nas costas
Diz oi pra todo mundo, fica um dia no máximo
e vai tal qual veio
O mano brinca
"Taurina monstra, a gente precisa de aliado, pra
amansar você e trazer pro nosso lado, humano."
Talvez eu responda o email
Com um sincero NÃO
O que sempre causa decepção
Mas ele sabe que eu não responderei a questão
Como ele mesmo gosta de falar:
"Taurina, você nem existe de tão livre."
Tá respondido

Passou

Detesto a forma como tudo em mim
Passa
E todo sentimento só serve bem
ao propósito da obra literária
Depois canalizado a tal
Passa
Afinal escrever vazio não
surte o efeito belo dos
vocábulos apaixonados
Tento segurar por 72 horas que seja mas
Passa
Após desaguar tudo no poema, se esvai
Passa
Abomino não a mim
Gosto da forma prísmica que sou
Abomino a passagem de tudo
Do amor
Da saudade
Da vontade
Do desejo
Do sonho
Tudo que era daqui a pouco nem será
Tento com mãos de ferro agarrar
algumas coisas, mas tudo dentro de mim
Passa
E um tédio absurdo me olha da janela azul
O azul não
Passa
Mas não é sentir, é cor
Tudo
Passa
diz tchau com uma calma assombrosa
de quem nunca existiu
Não leve a mal, meu bem
Mas tudo
Passa
Até o meu eu
de ontem

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Armaduras

Nem sempre eficazes se são duras
armaduras as vezes são
de cetim
de veludo
de seda
de papel
de nuvem
de azul
armaduras
de esconder pequenezas
armaduras
recheadas de leveza
No campo de batalha pessoal
armaduras
escondem o homem
revelam o animal
armadura para o bem e para o mal
armadura macia
de ilusão
armadura doce
de paixão
armaduras várias
para não amar
amar é a fraqueza mor
o baixar a guarda em plenitude
armadura contra isso
armadura em prol daquilo
e ela cai
no emaranhado
no amontoado
no beligerante instante
de amar...
armadura
amor corroi
o amor
a arma
aquela arma que nenhuma
armadura
destroi

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Breve momento de cogitar

Passamos pela vida
com as inquietações próprias de cada um
Vivemos os lapsos temporais
na vertigem incoerente dos fatos
Sabemos uma série de fatores
advindos do existir
Conhecemos
ação e reação
metodologias do agora
conceitos de acontecer
dinâmica de relacionamentos
enfim
Temos um mapa de caracteres vários
que vamos compondo a medida que
os choques entre o querer e o poder
vão se apresentando em nós e para nós
Procuramos respostas com o afã infantil
de quem na verdade não quer ser detentor
de todas as respostas
Ter todas as repostas nos remeteria a
um tédio perigoso de auto conhecimento
A maioria de nós não deseja estar consigo
sincera e completamente consigo
no silencioso vácuo de suas íntimas cores
É necessário árduo preparo para estar assim
Plenamente em si
Sabemos tudo, entendemos quase tudo e
chegamos a aceitar metade do mundo exterior
Mas o mundo interior nos devora
ao mesmo passo que nos embriaga
A nossa total condição de humanos
A nossa imperfeição retalhada de verdades
descobertas aos poucos, escondidas as vezes por vontade
pois descobrir de uma vez só, seria o trauma mor da existência
Mas não desistimos
Queremos
antiteticamente
desejamos
Nos desvendar até o fim
Não na observância do fim propriamente dito
Mas do conhecimento pleno de nós
O que muitos julgam utopia
outros, desnecessário
E a vida segue
apaixonada por Mestre Tempo
E nós a acompanhamos, carentes de explicações e certezas
Não de outrem
Mas de nossas próprias verdades abaláveis
estendemos as mãos para alcançar
As respostas que fogem de nós para nos seduzir
cada vez mais...

Desejo

Desejo que venhas
despido de medos
inacabado
posto te quero
decorar
aos poucos
linha, traçado em movimento

Desejo que venhas
aliteração em metade
impondo, compondo, anacrônico
em partes
para que eu vá catando
a ti tal qual grãos
do homem
do ser
do amado

Desejo que venhas
em surdina
em suspensão
surpresa
como num filme mudo
resguardado de beleza
para que eu não esqueça nunca
a data alvoroçada
da tua chegada

Desejo que venhas
armado
calejado
ufanizado e meu
para que te abrace
infantil e sereno
meu menino homem
na planície calma de nós dois

Desejo que venhas
e virás
tal qual a lenda da minha vida
que tu és.

Fim das Equivalências - Ode Azul

É o fim das equivalências
um fim aquarelado
numa Ode Azul
de perscrustar

As Equivalências ao chão
desmanteladas
dormindo desfeitas
no abraço plástico e belo
da lotus

Fim das Equivalências
num sorriso de quarar anseios
O fim esclarece o devaneio
nem é de todo fim
na verdade é meio

Meio da Ode Azul
que azucrina a paz
que se impoe ditadora
a paz dos umbrais do Amor
Amor Azul
de Menina Azul e Samurai Azul
no campo de arroz
inesquecível

Atemporal
Memorial
Tutorial das almas

Fim das Equivalências
em Ode Azul sem retorno
e este fim não é nada morno
é resposta
é ponto de partida
da canção a colhida

Exaustos de batalhar
um com o outro
No chão, ao gozo, quedam
azuis
exaustivamente
azuis

Menina Azul
Samurai Azul

E acaba aqui?
Não!
Só começa!

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Poema das Equivalências - cena 03

Dúvidas além do campo de arroz
Menina Azul vestida de saudade
Samurai Azul parado
golpes suspensos ao infinito

Nuvens azuis coroam os olhos
tristonhos mundos de colher perguntas
Menina Azul e o amor sem fala
que há de explicar
não há

As montanhas da versão de Sonhos
A Menina Azul silencia
e silêncio azul é medo
Samurai Azul distante
um traço morno do poente
incoerentes
as dúvidas

Menina Azul em canção
de lembrança e decisão
nada dirá
nada explicará
O amor na florada azul
amortece e permanece
O amor na paisagem azul
condensa e cresce

Somente assim
e a Menina Azul dorme
ao sabor do vento
ao toque da chuva

Samurai Azul
Menina Azul
parados na planície atemporal

O amor azul
além das dúvidas
sobrevivente a incertezas
sequencial, causal e pleno
segue...

[continua]

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Poema das Equivalências - cena 02

É outono agora na versão cítrica
azulada e lírica de Sonhos
Outono de folhas em simetria
caíndo pálidas no
amontoado de esperanças

Momento do mimetismo tácido
o fogo fátuo das consequências
de não ter volta
nos vértices e nas linhas
Traçado o outono nos olhos cinzentos
da Menina Azul dos contos

Samurai Azul vestido de incógnitas
no escampado morno das interações lúdicas
A Menina Azul chora
é a hora
a chegada da catarse
epifânica e plácida
epicentro dos desejos

A chuva cai serena
no outuno em garatujas
malfadados extratos de papoulas
A Menina Azul cora
é o agora
a presença da metáfora
inaudível e cálida
apogeu dos delírios

Distante a pequena
Azul Menina
no campo azul de arroz
em arabescos, sincronia dos segundos
avizinham marcas de polir calores
tartamudeiam ventos de arar sabores

A metros
jaz o Samurai Azul
na imensidão do caleidoscópio
das visões da Menina
ufanizado, costurado
grito, soneto, verso e mímica

A Menina Azul olha
O Samurai Azul olha
a beligerante soma de vontades
bailando com os atrevidos zefirantes
únicas ousadas testemunhas
do embate de amor azulado

Arma: íris
Golpes: retinas
O choque de verdade e criação
na versão azul de Sonhos

A metros mínimos de distância
valor e verossimilhança
A Menina Azul é constância
e o Samurai Azul avança

[continua]

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Poema das Equivalências - cena 01

O poema encontrou a rima
aos pés da cerejeira vermelha
onde o lago azul desagua
as armas, as cerejas e as bocas

A rima mostrou ao poema
a colcha vermelha de ideogramas
passeando pela paisagem da colcha
as palavras
amor
sonho
justiça

A cerejeira olhou o campo de arroz azul
o poema sem rimas sorriu infantil
nada no mundo azul de Sonhos
era matiz e verso
tudo mirai, mirai, mirai

Futuro
Sim
Na versão azul de Sonhos
além da verdade e do amor
o poema não descobriu as folhas
presas nos cabelos da
Menina Azul
deitada no colo do
Samurai Azul

Kurosawa Menina de madeixas negras
um mundo azul de costurar cismas
um universo azul de prantear alegrias

Vai criando dia a dia
a colcha Kabubi de memórias
no azul infinito do poema sem rima
no azul imenso do amor da menina...

[continua]

Oposição Equivalente II

Sendo eu o Kurosawa de minha vida
bordei vários ideogramas nas minhas cenas
minha versão de Sonhos é azul
um lago azul
uma menina azul
um samurai azul
somente uma cerejeira que não é azul
Na cena final do meu filme
tudo é oriente e paz
Ao som de Yiruma
as notas musicais na florada
sincera da lotus azul
O meu momento de editar as cenas
No fim da Oposição Equivalente
um campo de arroz azul
perfeitamente azul
com um poema ao vento
um poema que diz ...

[continua]

Oposição Equivalente I

Curioso como o digladiar de antíteses
é fácil e notadamente aceitável
Complicado se faz a questão
quando o versus é fundamentado
entre iguais sentimentos
pois na ingerência de opostos
tudo se veste de uma obviedade natural
Incerteza versus certeza
Bem versus mal
Razão versus devaneio
Amor versus ódio
Nestes casos
o desfecho é tranquilo e
deliberadamente sequencial
Fácil entender a oposição de opostos
se me permitem a redundância
Porém, na observância
da Oposição de Equivalentes
onde só há "mocinhos", finitos os vilões
a ferida latente se aloja
avizinha
massera
coagula
exigindo um final coerente porém complexo
Surgem assim, verdades com poder de polir
as arestas nossas de cada dia
Oposições de equivalentes
são, acredito, o último episódio
de uma minissérie de amor
Aquele momento de catarse
em que o expectador devora a tela
sequioso para entender ou ao menos
vislumbrar o desfecho da obra
Momento de Oposição de Equivalentes
Um instante para o qual não há fuga
Há que enfrentá-lo e destrinchá-lo
em suas mais tênues veredas
e com cautela, posto não existir
retorno ou posterior edição de cenas
A chegada do choque dos iguais
que nos coloca a todos na condição
de diretores dos filmes de nossas vidas
A hora de ser meu próprio Kurosawa
editar, cortar, maximizar minhas cenas
que delinearão a apresentação final
a versão que não admite finais alternativos
tampouco interação de público votante
minha versão exclusiva e poética do porvir
Intimamente ligada à decisão
da Oposição de Equivalentes
capítulo em que me encontro agora ...

[continua]

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

A Eles

A Eles
altos, baixos,
loucos, mouros
morenos, moços
normais, humanos
a Eles
de chegada
de partida
aqueles de dias
aqueles de meses
ou anos
Os Príncipes da Paixão
e seus brasões de sorrisos
e seus estandartes de lágrimas
Eles
novos
jovens
maduros
a Eles
de todos os lugares
de todas as lembranças
Eles
os tantos Eles
a Eles
aqueles Eles dentro da Caixa de Pessoas
às minhas pretéritas criaturas
um canto de paz
uma ode de reconhecimento
pelo refino
pelo preparo
pelo trabalho
pelo resumo
Os Menestreis da Paixão
seus poemas de erros
suas músicas de acertos
A Eles
amigos ou inimigos
agora
A Eles
tão somente
Eles
os Antecessores do Amor,
um sorriso
um adeus
e um sincero
muito obrigada
a Eles
todos
Eles.

A retina da alma e a caixa de pessoas

A moça era independente
destas que cedo aprendem
a estar no controle da própria vida
apertando botões de canais e volumes
por conta e risco
mais riscos que contas, pois as moças
assim trajadas de vida, gostam de desafios...

Pois bem,
era moça comum
braços, pernas, poses e sonhos
destas que não querem pedaços de nada
desejam o todo com certa consideração afiada
na meticulosa análise de vésperas ...

Guardava na caixa de presenças antigas
a coleção de paixões e romances vividos
conhecia de don juans a chaplins
todos um a um, jaziam na caixa, nomes e impressões atemporais
marcas lavradas em circunspectos motivos
metonímia coesa e divertida...

A moça abria a caixa vez ou outra
gostava de namorar as existências que se fizeram poemas
comédias, dramas, ficções, tragédias, épicos e afins
enfim, era a história dela, ora fada, ora bruxa,
ora outra, mas sempre ela...

A moça e a caixa de pessoas
absorta olhava a janela, não havia amor na caixa
e ela sabia, tinha a tal ciência daquele fato
outrora cismado diversas vezes, agora reconhecido
sem pompa ou dor, notório conhecimento e só...

As retinas da alma da moça
abertas fitando a caixa,
recipiente coalhado de tudo que sabia sobre sentir
a caixa e a retina flertavam harmoniosamente
em curiosidade e fleuma...

As retinas da alma da moça
devorando várias vezes a caixa de presenças
sagazes as tais retinas da alma
enxergando além da somatória das refrações da luz
sincera a caixa de pessoas, mostrando o que
não fazer de novo, mapa do tesouro das interações...

As retinas da alma da moça
procurando, esmiuçando o que destarte não havia ali
tudo existia, tudo para receitas e ensinamentos quaisquer
mas as retinas ainda procuravam, raio x de sonho
o cerne do sentimento maior ufanizado
amor...

A moça sorriu
guardou a caixa com ares de deixa estar
deixa estar o tempo
deixa estar o mundo
deixa estar a vida
deixa estar até a caixa

As retinas da alma da moça
agora
muito longe
longe mesmo
do mundo cúbico de lembrança
mais perto
bem perto agora
do universo prísmico da certeza.