quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Passou

Detesto a forma como tudo em mim
Passa
E todo sentimento só serve bem
ao propósito da obra literária
Depois canalizado a tal
Passa
Afinal escrever vazio não
surte o efeito belo dos
vocábulos apaixonados
Tento segurar por 72 horas que seja mas
Passa
Após desaguar tudo no poema, se esvai
Passa
Abomino não a mim
Gosto da forma prísmica que sou
Abomino a passagem de tudo
Do amor
Da saudade
Da vontade
Do desejo
Do sonho
Tudo que era daqui a pouco nem será
Tento com mãos de ferro agarrar
algumas coisas, mas tudo dentro de mim
Passa
E um tédio absurdo me olha da janela azul
O azul não
Passa
Mas não é sentir, é cor
Tudo
Passa
diz tchau com uma calma assombrosa
de quem nunca existiu
Não leve a mal, meu bem
Mas tudo
Passa
Até o meu eu
de ontem

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